3º Bimestre – 1ª Série ABC
Primeiro período clássico: Classicismo em Portugal (Século XVI)
Antecedentes do Quinhentismo
Cibele, de Michelangelo
Introdução
O Renascimento foi uma decorrência natural do Humanismo. Sua importância nas artes é o reflexo das transformações radicais sucedidas no Ocidente. A emancipação do velho sistema feudal implicou a descoberta de um novo mundo e de um homem.
A certeza de que o homem constituía uma força racional de dominar e transformar o universo levou as pessoas cultas da época (século XVI) a se identificarem com a tradição clássica, que valorizava o homem e a vida terrena. A Grécia e seus deuses passam a ser símbolos artísticos que competem com a Igreja.
O Classicismo português tem início em 1527, quando o poeta Sá de Miranda regressa da Itália, trazendo inovações literárias. Termina em 1580, com a morte de Camões e a passagem de Portugal ao domínio espanhol.
Situação Histórica
D. João III reinou de 1521 a 1557, empreendendo várias reformas no país. A primeira foi a da Universidade de Coimbra, adaptando-a aos novos tempos, absorvendo o Renascimento italiano. Depois, foi fundado o Colégio das Artes, em Coimbra, onde logo se introduziu o ensino do latim, do grego, do hebraico, da matemática, da lógica e da filosofia.
Visão atual da Universidade de Direito de Coimbra.
(Primeira a adaptar-se aos novos tempos renascentistas com as reformas de D. João II. No seu currículo de formação humanística foram introduzidas disciplinas que propagavam o saber clássico.)
A filosofia aristotélica opunha-se claramente à teologia cristã. Mestres e pedagogos franceses eram chamados a Portugal, durante o reinado de D.
João III, no intuito de balizar o país com o resto do mundo.
Os descobrimentos, que apresentaram novas paisagens, novos valores, novos costumes, ampliaram o conhecimento do mundo e do homem. As descobertas de outros mundos contribuíram, para o avanço das ciências; aperfeiçoou-se a navegação, a astronomia, a matemática e a medicina.
Algumas Características do Classicismo
1.Busca do homem universal: O mundo, o homem e a vida passaram a ser vistos sob o prisma da razão. Não se tratava do fim da emoção, mas da procura de uma expressão impessoal, que buscasse o homem universal. O homem renascentista procurou entender a harmonia do universo, e suas noções de Beleza, Bem e Verdade estavam associadas ao equilíbrio entre a razão e a emoção.
2.Valores Greco-latinos: cultivando os valores Greco-latinos, os renascentistas adotaram a mitologia pagã, própria dos antigos. Os poetas recorriam a entidades mitológicas para pedir inspiração, simbolizar emoções, exemplificar comportamentos. Pastores, deuses e ninfas estão presentes na literatura renascentista de uma forma natural, convivendo até mesmo com tradições cristãs, herdadas da época medieval.
3. Novos formatos – medidas novas: Novas formas de composição – como o soneto (poema de forma fixa constituído de dois quartetos e dois tercetos, empregado anteriormente pelos italianos Dante Alighieri e Petrarca), o verso decassílabo e a oitava rima (estrofe de oito versos com as rimas abababcc, utilizada por Camões em Os Lusíadas) – foram introduzidas em Portugal por Sá de Miranda.
Consciência da nação: Ao lado da consciência do homem como um ser universal, houve, no Renascimento português, uma consciência de nação, pois grandes navegações fizeram dos portugueses um povo heroico. A euforia das descobertas contaminou, também, a arte renascentista.
OS POETAS RENASCENTISTAS
Muitos dos poetas renascentistas fizeram parte do Cancioneiro Geral, organizado por Garcia Resende em 1516: Sá de Miranda, Antônio Ferreira, Bernardim Ribeiro foram alguns deles. Todavia, o mais importante poeta do Classicismo português é, sem dúvidas, Camões.
Luís Vaz de Camões (Lisboa, 1524-1580)
Frontispício de Os Lusíadas (1572)
O poeta que frequentou muito a corte, fazendo poemas para as damas e vivenciando muitos amores. Em luta contra os mouros, no Norte da África, teria perdido a vista direita.
Em 1572 publicou Os Lusíadas, dedicando-o ao rei D. Sebastião, que lhe deu pensão anual modesta.
Camões viveu miseravelmente até o fim da vida. O poeta morreu em 1580, ano em que Portugal passou para o domínio espanhol.
OBRAS
Poesia épica: Os Lusíadas
Poesia lírica: reúne odes, écoglas, sonetos, elegias.
Teatro: Anfitriões, Auto de El-rei Seleuco, Auto de Filodemo
Cartas: quatro volumes
Poesia épica de Camões
Os Lusíadas
Forma
A mais importante epopeia em língua portuguesa teve como modelos literários a Ilíada e a Odisséia, do poeta grego Homero. Camões compôs Os Lusíadas em dez cantos, divididos em 1102 estrofes regulares de oito versos cada uma, totalizando 8816 versos.
Todas as estrofes têm o mesmo esquema rítmico: abababcc, ou seja, rimas cruzadas em seis versos e emparelhadas em dois. São versos decassílabos heroicos, e o poema se organiza em:
proposição do assunto (canto I, estrofes 1-3)
invocação às Tágides, musas do rio Tejo (canto I, estrofes 4-5)
dedicatória a D. Sebastião (canto I, estrofes 6-18)
narração da viagem de Vasco da Gama (estrofes 19-1045)
epílogo, contendo um fecho dramático a respeito da cobiça e o episódio da Ilha dos Amores (estrofes 1046-1102).
Enredo
Canto I – Inicia-se a narração com a armada de Vasco da Gama já a caminho de Moçambique. Ocorre, no Olimpo, o Concílio dos deuses: Baco é contra a viagem, Vênus e Marte são a favor. Marte propõe que Mercúrio guie os portugueses. Baco instrui o rei de Moçambique contra os portugueses, mas Vasco da Gama prossegue até Mombaça (o Quênia).
Canto II – Baco continua as suas manobras, instigando os mouros contra os lusitanos. Vênus intercede junto a Júpiter, que prevê glória aos portugueses. Mercúrio aparece num sonho de Vasco da Gama e o aconselha a ir para a Meelinde. Lá, o navegador começa a contar ao rei a história de Portugal.
Canto III – Fazem parte do relato ao monarca Melinde os episódios de Egas Moniz, o da batalha do Salado e o de Inês de Castro.
Canto IV – Prossegue a história em Portugal, estando em foco a ascensão do Mestre de Avis e o episódio do Velho do Restelo: um ancião que aparece na praia Restelo, advertindo os portugueses sobre os perigos provocados pela vaidade e desejo de fama.
Canto V – Vasco da Gama continua narrando ao rei de Melinde sobre como navegou perigosamente pela costa africana. Em foco, o Fogo de Santelmo, a tromba marítima e o episódio do Gigante Adamastor, figura mítica que personifica o Cabo das Tormentas, mais tarde chamado de Cabo da Boa Esperança.
Canto VI – A frota deixa Melinde ruma às Índias. Baco pede ajuda a Netuno, deus do mar, contra os portugueses. Éolo (deus dos ventos) desencadeia uma tempestade, mas Vênus intervém e manda as ninfas seduzirem os ventos. A esquadra chega a Calicut (Índia).
Canto VII – Descrição da índia. Desembarque e entrevista com Samorim (rei hindu). O catual (regedor) visita a frota e pede a Paulo da Gama que explique o significado das bandeiras.
Canto VIII – Explicação detalhada de Paulo da Gama sobre os grandes vultos de Portugal. Baco, em sonho, instrui um sacerdote muçulmano contra os portugueses. Vasco da Gama é preso e trocado por mercadorias.
Canto IX – Os catuais tentam retardar a volta da frota, mas a armada parte. Vênus resolve compensar os lusitanos e ordena a Cupido e à Fama que preparem a Ilha dos Amores. As ninfas lá se instalam e Tétis, deusa dos oceanos, recepciona os portugueses.
Canto X – Banquete no palácio de Tétis, que apresenta a Vasco da Gama a “Máquina do Mundo”, que é a descrição do universo e da Terra.
Poesia lírica de Camões
A obra lírica de Camões é constituída de poemas feitos na medida velha e na medida nova. A medida velha obedece à poesia de tradição popular, as redondilhas, de cinco ou sete sílabas (menor ou maior, respectivamente). São composições com um mote (um tema) que se desenvolve em glosas (improviso).
Os poemas em medida nova são formas poéticas ligadas à tradição clássica. São eles:
sonetos (composições poéticas de 14 versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos);
écoglas ( poesias em forma de diálogo, com tema pastoril);
elegias (composições que expressam tristeza);
canções (composições curtas);
oitavas (poemas com estrofes de oito versos);
sextinas (poemas com estrofes de seis versos).
O amor, na poesia lírica de Camões, aparece como um sentimento que eleva o homem, tornando-o capaz de atingir o Bem, a Beleza e Verdade. Também aparece como um sentimento contraditório pela própria natureza. De um lado, ele é manifestação do espírito; de outro, é manifestação carnal. Para Camões, o amor deve ser experimentado, e não apenas intelectualizado. Em sua poesia lírica, o poeta passa a ideia de que o amor só vale a pena quando é complexo, contraditório.
Nos poemas de medida velha, Camões está mais próximo da poesia popular medieval. Já nos de medida nova, aproxima-se de grandes vultos clássicos, como o italiano Petrarca, por exemplo.
Poesias de medida velha
Descalça vai para a fonte
Mote
Descalça vai pera a fonte
Lianor, pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.
Voltas
Leva na cabeça o pote,
O texto nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamalote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura:
Vai fermosa, e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro o entrançado,
Fita de cabelo de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura:
Vai fermosa, e não segura.
Poesias de medida nova
A parte mais representativa da poesia lírica camoniana são os seus sonetos – todos em versos decassílabos -, em que apresenta um verdadeiro ideário do Amor.
Alma minha gentil, que te partiste
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tornando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soia.
Aproveitamento de leitura ...
Após realizar esta atividade a envie para o e-mail: sconceicao@prof.educacao.sp.gov.br até dia 11/09/2020. Não se esqueça de se identificar com nome, número, turma e o título da atividade.
Faça o resumo do texto em seu caderno.
Obs.: Um resumo é um gênero textual que parte das informações mais relevantes de um texto, por isso, ele não deve ser nem curto demais e nem maior que o texto original. Leia o texto a ser resumido com atenção e, se possível, grife as passagens mais importantes depois transcreva com suas palavras utilizando a norma-culta, ou seja, não use abreviações e termos e/ou expressões informais.
Vamos praticar!
Leia a seguinte estrofe do episódio do velho Restelo e responda as questões:
Ó gloria de mandar, ó vã cobiça,
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
Com uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldade neles experimentas!
O que o velho do Restelho condena?
_____________________________________________________________________
Que previsão ele está fazendo?
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(Vunesp –SP) Apontam-se a seguir características atribuídas pela crítica à epopeia de Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas. Uma dessas características está incorreta. Trata-se de:
concepção da história nacional como uma sequência de proezas de heróis aristocráticos e militares.
apologia dos poderes humanos, realçando o orgulho humanista de autodeterminação e do avanço no domínio sobre a natureza.
efabulação mitológica.
contraposição da experiência e da observação direta à ciência livresca da Antiguidade.
eliminação do pan-erotismo, existente em parte da lírica, em favor de uma ênfase mais objetiva na narração dos feitos lusitanos.
(MACK –SP) Sobre Os Lusíadas, é incorreto afirmar que:
quando a ação do poema começa, as naus portuguesas estão navegando em pleno Oceano Índico, portanto a meio da viagem.
na invocação, o poeta se dirige às Tágides, musas do Rio Tejo.
na Ilha dos Amores, após o banquete, Tethys conduz o capitão ao ponto mais alto da ilha, onde lhe desvenda “a máquina do mundo”.
tem como núcleo narrativo a viagem de Vasco da Gama a fim de contrato marítimo com as Índias.
é composto em sonetos decassílabos, mantendo, em 1102 estrofes, o mesmo esquema de rima.
(Fuvest – SP) Na lírica de Camões,
o metro usado para composição dos sonetos é a redondilha maior.
encontram-se sonetos, odes, sátiras e autos.
cantar a Pátria é o centro das preocupações.
encontra-se uma fonte de inspiração de muitos poetas brasileiros do século XX.
a Mulher é vista em seus aspectos físicos, despojada de espiritualidade.
(MACK –SP) O digno representante do povo lusitano, herói de Os Lusíadas, foi:
Alexandre, o Grande
Trajano
Vasco da Gama
Ulisses
Virgílio
(MACK –SP) Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau. Mas fui castigado.
Assim que só para mim
Anda o mundo consertado.
O texto acima:
é parte do teatro de um auto de Gil Vicente.
é um soneto camoniano.
é composto de redondilhas, que se encaixam na lírica de Camões.
pode ser encaixado em Os Lusíadas, devido à estrutura das estrofes.
é uma cantiga de amigo.
Como é possível perceber, a epopeia camoniana faz exaltação à alguma coisa em especial. O que? Justifique sua resposta.
A obra está repleta de mitologia. Cite 5 deuses que aparecem no enredo e quais são seus poderes segundo a Antiguidade Grega.
Leia atentamente ao poema e responda às questões 9 e 10.
Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo:
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim
Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crescesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho inimigo em mim?
Sá de Miranda. In:Massaud Moisés. A liertatura portuguesa através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1997.p.93.
Vocabulário:
Desavir-se – desentender-se, indispor-se
Imigo – forma simplificada de inimigo
Se considerássemos apenas a métrica, poderíamos incluir o poema de Sá de Miranda no Classicismo renascentista? Por quê?
Quase todos os poemas que até agora vimos falam de amor. O conflito, embora se desenvolvesse no interior do sujeito lírico, relacionava-se sempre com o mundo externo (isto é, como o outro, com a pessoa amada).
No poema de Sá de Miranda, com quem o sujeito lírico entra em conflito?
Por que o sujeito lírio fugia das pessoas?
A solidão é capaz de aplacar a dor do sujeito lírico? Por quê?
Considere os dois versos: “não posso viver comigo/ nem posso fugir de mim”. Quais seriam os dois únicos modos de o sujeito lírico acabar com sua dor? Explique sua resposta.
Bons estudos!